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ENTREVISTA EXCLUSIVA: o racismo político e acadêmico por trás do 'Caso Decotelli'

por Neison Cerqueira no dia 03 de July de 2020 às 07:20
Foto: Reprodução / Brasil 247

Preto, de currículo recheado, elogiado pela imprensa e sociedade civil pelos mesmos motivos. A indicação do ex-presidente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), Carlos Alberto Decotelli, para o Ministério da Educação (MEC) no governo do presidente Jair Bolsonaro - primeiro preto a ocupar um cargo de alto escalão - surpreendeu muita gente, mas não de forma positiva. 

Apesar do currículo vistoso e 'lobby' feito por políticos apoiadores do presidente, a indicação de Decotelli pela ala militar do governo, apesar de técnica, sofreu resistência: a do racismo. Nas redes sociais, o debate ganhou força: caiu por terra assumir a pasta por causa das informações inconsistentes em seu currículo ou o fato de ser preto pesou? 

O site Radar da Bahia entrevistou, com exclusividade, a professora das redes pública e particular, e especialista Políticas Públicas, Elia Rocha. Confira:

Radar da Bahia: A confusão em torno do currículo tornou insustentável sua nomeação para o MEC. Professora, de modo geral, como a senhora avalia o "Caso Decotelli", já que ele tava lá por ter perfil técnico? A manutenção dele deixou de fazer sentido por causa do falso currículo ou o racismo ficou escancarado?

Elia Rocha: Decotelli é um nome que chega até Bolsonaro através da ala militar. Se fazia necessário justificar o cargo com título, e foi providenciado. Mentir em currículo virou uma prática recorrente dos aliados de Bolsonaro. Decotelli só esqueceu que ele é preto. É necessário compreender que não basta ser negro, não basta só se afirmar negro no censo do IBGE, é importante entender o que é ser negro numa sociedade de classe e que o racismo está sempre aliado ao capitalismo, fazendo com que os negros estejam sempre em posições de subalternidade. Não se tem outro nome que justifique o linchamento que ocorreu com ele, que não seja racismo, quando se entende como esse sistema opressor opera.

Radar da Bahia: O debate, principalmente no Twitter, ganhou força por causa de situações semelhantes no governo Jair Bolsonaro. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles e a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, que também mentiram em seus currículos, mas permeneceram em seus cargos. Qual sua análise? 

Elia Rocha: É preciso partir da premissa de que o governo Bolsonaro sempre se mostrou moldado na farsa. Prova disso são as inconsistências discursivas e práticas da época eleitoral com a que estamos vivenciando agora. O grande diferencial de Salles e Damares é que eles são brancos. A branquitude se protege e estão sempre criando meios de manutenção dos seus privilégios. Isso é o que a doutora em Psicologia Cida Bento, desde a decada de 90, denomina de "pacto narcisístico da branquitude". 

Decotelli não compreende o que é ser negro em uma sociedade altamente racista e classista, tanto que se dispõe, sem nenhum constrangimento, a fazer parte de um governo abertamente fascista. Em quase dois anos de governo, é o primeiro ministro negro nomeado,  o "Negro Útil". O que eu consigo assimilar de todo esse cenário, é que não dá para evocar a imagem racial para defender ele, defesa que não partiu nem dele, nem do grupo no qual faz parte, a ala militar do governo. 

O máximo que se pode vê, é um tuíte da Deputada Carla Zambelli (PSL) falando dele, mas na perspectiva de propagar o discurso meritocrático, que eles tanto defendem. O que aconteceu com ele foi racismo? Sim. Sem sombras de dúvidas. E acho muito importante vê hoje a sociedade fazendo essa diferenciação com os casos dos outros ministros, e entender o porque que Decotelli caiu.

Radar da Bahia: A pressão da imprensa, visto que o Governo Bolsonaro já teve dois ministros - Ricardo Veléz e Abraham Weintraub - foi o que culminou na saída de Decotelli? 

Elia Rocha: Sem dúvida, o que o levou a sair foi o fato dele ser negro. Quando o movimento negro fala "nós por nós ", não é só uma frase pronta e de efeito. É porque, na prática, somos nós por nós mesmo. É impressionante a força que a branquitude exerce para destruir homens e mulheres negras em evidência, principalmente para deslegitimar um espaço que não é formatado para nós - o cargo máximo da Educação no Brasil. E isso comprova o que falamos sobre o esforço dessa massa em manter seus privilégios. Ricardo Vélez teve divergências nas informações apresentadas, Weintraub também. Porém, a mentira deles se torna aceitável e que cabe a defesa, enquanto a de Decotelli não é tolerável e questionada até pelas pessoas consideradas aliadas dele.

Radar da Bahia: Após ter a nomeação tornada sem efeito por Bolsonaro, uma reportagem da Revista Época (online) revelou que a Fundação Getúlio Vargas (FGV) mentiu sobre o currículo de Decotelli. Como a senhora considera esse caso?

Elia Rocha: Decotelli não só mentiu no currículo dele, como também foi descoberto que aproximadamente 70% da dissertação do seu mestrado foi plágio. Dissertação essa defendida na FGV. Tirando um pouco a responsabilidade do Decotelli, alguns questionamentos surgem. Como essa dissertação teve um orientador que não percebeu que mais da metade dessa escrita era um "copiou e colou"? Pior: como uma banca com três doutores não perceberam isso? Isso tem cheiro forte de corporativismo acadêmico entre professores universitários e muito tapinha nas costas. Aquele que permeia bancas de avaliação, concessões de bolsas e aprovações de concurso. O corporativismo que muitos fingem que não existe ou evita falar, para não soar "anti-universidade" ou medo de retaliação, mas que todos sabem da existência.

Radar da Bahia: Professora, como senhora avalia a Educação no governo e a gestão dos dois ex-ministros citados? 

Elia Rocha: Fazendo uma avaliação como professora atuante em sala de aula, posso dizer que é péssima. Mas me permita discorrer o porquê disso. A educação nunca foi e nunca será uma prioridade no governo de Bolsonaro, que se mostrou andar na contramão de todos os avanços que tivemos até aqui, mesmo ainda se faltando muito. Desde Ricardo Vélez, o governo tem adotado políticas de retrocesso e posturas excludentes. A condução do ENEM está aí para provar, como um exemplo simples. Os casos vêm ocorrendo de Vélez, afirmando que a universidade não é para todos à Weintraub, revogando as cotas para negros, indígenas e pessoas com deficiência na pós-graduação. Estamos caminhando na obscuridade, tanto na educação, quanto nas outras pastas. O retrocesso e a exclusão é o que tem pautado esse governo.

'Voz' nas redes sociais

O assunto foi repercurtido nas redes sociais pela mestra e doutoranda em Estudos Feministas na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e escritora, Carla Akotirene, em sua página oficial no Instagram. Para ela, "toda promoção pessoal negra tem repercussão na autoestima da família, comunidade e DNA ancestral". Em suua postagem, Akotinere diz que, "seu corpo antigo na tez preta, dificilmente nega a carreira intelectual consolidada bem depois de Abraham Weintraub, Damares Alves e Ricardo Salles", ao comparar casos semelhantes, em que nada foi feito. Ela completa: "os últimos, são ministros brancos respeitados por mentirem sobre Lattes que nunca vão morder ninguém, em virtude da falta de créditos".

Akotirene descreveu os casos dos ministros Damares, Salles e Weintraub, aos quais ela os denominam 'brankkos' e explica: "Desde a colonizacão essa gente trapaceia e comunga com os setores progressistas a moralidade de viver, pensar e se proteger como 'brankkos'. Nunca precisaram de liberdades sexagenárias de nível superior", escreveu. O fato de ser de direito, segundo Akotirene, não levaria Decotelli a deixar a Argentina por questões financieras. Caso fosse de "da direita, terias capitais simbólicos, políticos e econômicos para se manter".

Akotirene também rechaça o fato de plágios em bancas, dando exemplos, inclusive, de algumas no qual se fez presente. "Tu acredita que já participei de várias bancas de especialização as quais havia plágio? Contra minha vontade, quase todas decidiram primar pela cerimônia de humilhação solene diante das famílias ali presentes. Por quê? A academia é responsável pela colonialidade do saber, revestida em poder ou não conquistarmos credenciais. Foi graças a reconfiguração demográfica implantada durante a era Lula que muitas gentes acessaram o ensino superior. Respeito a propriedade intelectual, porém, sei também, como a academia induz aos plágios ou deméritos, sem falar nos sistemáticos apagamentos lingüísticos, filosóficos e espirituais, devido a Ciência possuir a fonte de regra à la pós doutorado na Alemanha", discorreu. 

Por fim, Akotirene afirma em sua postagem que, "a academia empobrece nossos valores Bantus e éticas Yorubas pois o potencial para revoluções culturais é cooptado pela meritocracia, linguagem culta e hegemônica dos parâmetros ABNT. Na conjunção subordinativa, nada de adjetivos para o preto teórico pronto a criar divisões de poder entre o conhecimento dos livros e a inteligência da boa leitura de mundo. Pouco importa se o Senhor falou “menas verdade.” A academia tem objetivos gerais em prol da miséria e desonra daqueles malquistos. Nossos ancestrais exigem excelência no atabaque, entendem bem e dançam as letras mandadas nas cantigas", conclui.

Entenda o 'Caso Decotelli'

A polêmica teve início quando Decotelli foi desmentido pela Universidade do Rosário, na Argentina, e também pela Universidade de Wuppertal, na Alemanha. A Fundação Getúlio Vargas (FGV) também negou que o economista tenha sido professor ou pesquisador da instituição, informação que também constava em seu currículo. Além disso, há ainda sinais de plágio em sua dissertação de mestrado. Posteriomente, o próprio Decotelli, com exclusividade, enviou imagens de certificados onde a FGV o considerava professor: "Fake da FGV destruiu minha carreira no MEC", disparou. Após as polêmicas, o presidente Jair Bolsonaro tornou sem efeito a nomeação de Decotelli para o MEC. 

 

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