publicidade

Espiritualidade

Os corpos minorizados, Sacramento de Deus!

por Redação Radar da Bahia no dia 14 de June de 2020 às 08:00
Foto: (Reprodução)

“Digo-lhes a verdade: o que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram.” – Mateus 25. 40

Os símbolos, ou signos, são fundamentais para que um mundo tão complexo como o nosso seja minimamente legível. Mas a representação de uma realidade não é a realidade em si, pois ela sempre nos escapa em alguma proporção. Os sistemas religiosos também são sistemas de signos. A respeito de Deus, os místicos cristãos afirmam que Ele – ou seria Ela? Será que Elx não faz melhor aproximação à realidade Divina? – é o Totalmente Outro, o Mistério Tremendo e Fascinante. Embora o Novo Testamento afirme que Deus “habita em luz inacessível” (I Timóteo 6. 16), ele também revela que “em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Colossenses 2. 9) e que “O Filho é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser...” (Hebreus 1.3). Ou seja, a espiritualidade cristã reconhece que Deus é mistério e, ao mesmo tempo, compreende que Jesus Cristo é a revelação máxima de Deus acessível aos sentidos humanos.  

Os sentidos das representações simbólicas são sempre disputados. No último dia 11, os cristãos católicos celebraram o Corpus Christi, o Corpo de Cristo. Trata-se da afirmação dogmática de que Jesus Cristo está literalmente presente no sacramento da eucaristia. Em meio a querelas eclesiásticas, o dogma da transubstanciação foi instituído no século XIII pelo papa Urbano IV. Ele afirma que, no ato da consagração, a substância do pão e do vinho transforma-se misteriosamente no próprio corpo e sangue de Cristo. Mas esse sentido imposto pelo papa romano não era e ainda não é um consenso em toda a cristandade. Posteriormente, entre as igrejas protestantes, o sentido da Ceia do Senhor, a forma ritual de sua administração e as pessoas consideradas dignas de comungar permaneceram em disputa, e ainda hoje permanecem. Jesus de Nazaré, contudo, põe sempre um grande ponto de interrogação às verdades cristalizadas em dogmas. Em sua prática e ensino, ele deu primazia à vida e à dignidade humana em detrimento dos preceitos religiosos, dos códigos morais e das estratificações sociais, despertando a ira dos fundamentalistas e supremacistas que o executaram na cruz. 

Se quisermos realmente honrar a memória Jesus, devemos desenvolver o estilo de vida que ele viveu e ensinou. Como diz o apóstolo João “aquele que afirma que permanece nele, deve andar como ele andou.” (I João 2. 6). De acordo com Lucas, ele “andou por toda parte fazendo o bem, curando todos os oprimidos pelo diabo...” (Atos 10. 38). Diabo significa “aquele que divide/aquele que segrega”. Toda lógica de segregação é diabólica e opressora, e sempre será alvo da atuação poderosa de Jesus para sua destruição. No versículo em epígrafe, Jesus de Nazaré, revelação máxima de Deus a nós, diz que servi-lo é fazer justiça aos “menores irmãos”. Essa declaração bíblica revela que, para o escândalo e fúria dos fundamentalistas, cheios da letra que mata, mas vazios do espírito que vivifica – vide o caso da representação do Crucificado feita pela transexual Viviany Beleboni na Parada Gay de São Paulo em 2015, e do desfile da Mangueira no carnaval deste ano, o Corpus Christi é encontrado muito mais nos corpos das minorias sociais do que nos signos rituais. Venerar o Corpo do Cristo morto e ressuscitado é colocar-se ao lado dos sujeitos oprimidos, lutando contra os sistemas de injustiças, na esperança de novas ressurreições, quando a vida triunfará sobre todas as formas de morte e todas as pessoas serão tratadas com a sacralidade que possuem enquanto portadoras da imagem e semelhança de Deus!    

Do seu amigo e pastor, Danilo Gomes.

Notícias: Espiritualidade

publicidade

publicidade

© Copyright 2018 - Radar da Bahia - Grupo Radar