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Espiritualidade

Por uma espiritualidade trinitária

por Redação Radar da Bahia no dia 07 de June de 2020 às 08:00
Foto: (Reprodução / Presença de Deus em pequenos gestos)

“Novamente Jesus disse: "Paz seja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu os envio". E com isso, soprou sobre eles e disse: "Recebam o Espírito Santo.” – João 20. 21,22

Segundo o calendário cristão, hoje se celebra o dia da Trindade. A tradição cristã desenvolveu a compreensão de que o Deus que se revela na história, conforme registrado nas Escrituras Sagradas, é um Deus Triúno, isto é, um Deus único que se constitui na perfeita unidade de três pessoas iguais em status divino: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, ou a Ruach, se quisermos ser fiéis à imagem feminina conferida à terceira pessoa da Trindade, como inicialmente apresentada nas Escrituras. Assim, a fé cristã é, ao mesmo tempo, monoteísta e trinitária. Essa crença não é unânime e já gerou muitas querelas teológicas ao longo da história. Ela foi cristalizada pela ortodoxia cristã no dogma da Santíssima Trindade, e quem dele discorda é estigmatizado como herege, seguindo a lógica religiosa hegemônica de controlar as consciências e normatizar a fé. 

Embora creia pessoalmente na Trindade, acolhendo o legado da minha tradição de fé, fujo dessa lógica dogmática. Admito a minha incapacidade e falta de interesse em explicar o dogma, a fim de convencer quem quer que seja. Reconheço que Deus é Mistério. Tentar enquadrá-lo numa doutrina é apequená-lo. A Trindade é claustrofóbica e sempre escapa aos cerceamentos dogmáticos. Mas gosto do caráter pedagógico de uma espiritualidade trinitária. Por isso, trago mais uma vez o mesmo trecho da narrativa de João que usei no artigo passado, desta vez para evocar o caráter relacional e missionário da Trindade. O Pai, o Filho e o Espírito Santo vivem em uma eterna comunhão de amor. A tradição cristã ortodoxa oriental representa a Trindade em uma eterna dança divina, perfeita em harmonia e sincronia. No trecho bíblico em destaque, as três Pessoas da Divindade participam ativamente da Missão de Deus no mundo e nos convida para sermos co-participantes nesta missão. Somos chamados para entrar na ciranda amorosa e missionária da Trindade. 

Na Comunidade da Trindade – antiga igreja católica localizada na região de Água de Meninos aqui em Salvador, liderada pelo meu querido amigo, o monge Henrique Peregrino, que acolhe pessoas em situação de rua, e que no período escravocrata abrigava e colocava em rota de fuga muitos irmãos e irmãs que foram perversa e desumanamente submetidas à escravização –, conheci o ícone da Trindade de Ternura, este que ilustra o artigo. No centro da Trindade está a pessoa que foi ferida por injustiças, tribulações e fatalidades. O Deus Triúno está comprometido tanto em envolver com ternura curativa as pessoas feridas, quanto em soprar impetuosamente contra as estruturas que ferem. O irmão Henrique me ensinou que o direito humano mais fundamental não foi registrado na importante Declaração Universal dos Direitos Humanos. Trata-se do direito que toda pessoa tem de amar e ser amada. Dele deriva todos os demais direitos. 

Quando desenvolvermos realmente uma espiritualidade trinitária, não teremos mais casos como os de George Floyd e Miguel Otávio, tanto porque construiremos uma sociedade que se relaciona em amor e equidade, quanto porque nos insurgiremos contra os comportamentos supremacistas dos Chauvins e Cortes Reais da vida. Aliás, afirmo enfaticamente que a igreja que silencia diante de injustiças como esses assassinatos racistas dos últimos dias, como diante de qualquer opressão social, há muito abandonou o primeiro amor e rompeu com a Trindade Santa, ainda que preserve calendários e liturgias vazias. Para esse tipo de igreja, deixo as palavras incisivas do Cristo Ressurreto: “Lembra-te, pois, de onde caístes, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras...”.   

Do seu amigo e pastor, Danilo Gomes.

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