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Espiritualidade

Um pentecostes antirracista

por Redação Radar da Bahia no dia 31 de May de 2020 às 08:00
Foto: Delegacia Minneapolis (Reprodução / Catraca Livre)

“Novamente Jesus disse: "Paz seja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu os envio". E com isso, soprou sobre eles e disse: "Recebam o Espírito Santo.” – João 20. 21,22

“Por favor, eu não posso respirar...”, é o que gemia, até perder os sentidos, no último dia 26 de maio, em Minneapolis, George Floyd, negro de 46 anos, implorando por sua vida, enquanto agonizava sob joelho branco racista do policial Derek Chauvin. Acusado de tentar pagar uma compra com nota falsa, Floyd foi detido, algemado e, mesmo sem oferecer resistência, lançado ao chão e asfixiado por cerca de 8 minutos. O racismo antinegro é a maior monstruosidade da história moderna. Há um “Chauvinismo” racista que estrutura a sociedade estadunidense. Não é diferente no Brasil. Segundo dados da Organização das Nações Unidas, a cada 23 minutos, uma pessoa negra é assassinada em nosso país. Hoje, pelo calendário cristão, comemora-se o dia de Pentecostes, festa judaico-cristã em que, segundo o relato do capítulo dois de Atos dos Apóstolos, o Espírito Santo de Deus foi derramado sobre discípulos e discípulas de Jesus que se reuniam em oração em Jerusalém. 

O clamor de Floyd para que pudesse respirar remeteu-me imediatamente ao Espírito Santo. O relato bíblico da criação diz que Deus soprou no ser humano o espírito, o fôlego da vida, e ele se tornou alma vivente. A palavra hebraica que foi traduzida por espírito/fôlego de vida é Ruach, substantivo feminino, que, dentre outras possibilidades, também pode ser traduzida por sopro, vento, hálito, respiração. A Ruach Divina é descrita como Aquela que pairava sobre as águas caóticas para formar o cosmos, um mundo belo e organizado. Ela é o útero fecundo da Divindade que gesta as mais diversas e criativas possibilidades de vida. A respiração, portanto, é a herança divina que todo ser humano carrega. Ao asfixiar Floyd, aquele policial atentou contra o que nele havia de mais sagrado. Levantou-se contra o próprio Espírito da Vida. O assassinato é o ápice escandaloso do crime racista. Mas pessoas negras são simbólica e emocionalmente asfixiadas diuturnamente pelos mais variados gestos racistas. Por isso eu digo em alto e bom som: todo racista é assassino!   

Jesus disse que o Espírito do Senhor estava sobre ele para desfazer as estruturas de opressão. No versículo acima, Ele evoca para si a imagem do Deus Criador e envia seus discípulos para a Missão, soprando sobre eles seu Espírito. É como se dissesse: não há paz sem justiça. Portanto, respirem fundo o ar libertário que me move, transbordem da Ruach e saiam por aí soprando vida abundante em toda realidade caótica. Jesus nos convoca para uma conspiração (co-inspiração) contra os sistemas opressores. A espiritualidade do Ressuscitado nos mobiliza para a insurgência coletiva contra as opressões e a promoção do direito à vida digna. Isso não guarda qualquer relação com certa religiosidade pseudocristã egocêntrica, alienada e alienante que se espalha por todo o mundo. 

As igrejas não podem comemorar hoje o Pentecostes e cristãos e cristãs não podem se afirmar templos do Espírito Santo se não se insurgirem radicalmente contra o pecado do racismo. Silenciar é ser conivente com o crime racista e opor-se ao movimento de Jesus. Está acontecendo agora um Pentecostes nos Estados Unidos da América. Tomando emprestada a expressão do teólogo Ronilso Pacheco, “O sopro antirracista do Espírito” está movimentando uma insurreição por justiça racial que começou em Minneapolis e se espalha pelo país. Oro para que essa Ventania Santa também gere uma insurreição no Brasil. Peço que você pare um pouco agora. Respire fundo, sinta o fôlego divino percorrer todo seu corpo. Agora responda: Você é capaz de dizer amém? Qual será o seu comprometimento prático com esse movimento antirracista da Ruach Divina em nosso país? 

Do seu amigo e pastor, Danilo Gomes.

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