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Esportes

Crônica: Fonte Nova, ou morte

por Marcus Curvelo no dia 10 de September de 2019 às 09:00
Foto: Resprodução

A fase é boa. O Vitória não perde mais. Quando o Vitória perdeu pela última vez? 

E o Bahia? O Bahia também não perde mais. 

Gilberto é melhor do que Gabigol.

E Wesley? Dois gols contra o Vila Nova? Ele joga muito e quem não gosta é corneteiro. Quem sabe jogar tem que prender a bola mesmo. Segure a bola, Wesley! Segure a bola até o jogo acabar.

Por falar em Vila Nova, alguém mais recebeu aquele vídeo? 

“GALERA VILA X VITÓRIA”

Procurem no Youtube. 

Por algum motivo, um jogo entre Vila Nova e Vitória, de 2011, viralizou novamente. Não o jogo em si, que foi vencido pelo Vitória, mas uma reportagem com os torcedores do Vila durante o jogo. 

Uma viagem de ácido de sofrimento e alegria sobre uma torcida derrotada e sem esperanças.

Torcedores do Vila Nova completamente transtornados, embriagados, loucos, alucinados, entorpecidos, apaixonados, lunáticos. Um dos vídeos mais importantes da humanidade. 

Procurem. 

Torcer para um time de futebol é uma experiência importante. É um devir existencial importante. Ver o jogo do Vitória em um bar miserável, em uma TV Sylvania, é importante. Ver o time empatar com o Coritiba, com um chute do meio de campo de Lucas Cândido, é importante. Como substituir tais experiências?

E a catarse tricolor? O time não perde mais e vai ganhar do Fortaleza na próxima rodada. Este Bahia de 2019 é o Vitória de 2013. Vai acabar no G6, tenho certeza. 

Que recompensa o torcedor do Bahia está tendo em 2019. 

E nós, torcedores do Vitória? Estamos dando a volta por cima. Eu acredito em um G10. Não vamos cair, Negô.

Acreditar em uma campanha rumo ao G4 é um delírio completo, mas tudo pode acontecer. Poderíamos delirar como os torcedores do Vila Nova, no icônico vídeo do Youtube.

O Vitória segue invicto até o final da série B. Mais sei lá quantas vitórias e só alguns empates. Um 4º lugar impensável. Eu acredito! Tudo pode acontecer. O futebol não faz sentido. Nada faz sentido. 

E agora está confirmado, o Vitória vai jogar na Fonte Nova. 

O Vitória vai abandonar o Barradão e jogar na Fonte Nova pelos próximos anos. 

É isso que vai acontecer. Está realmente confirmado.

Vitória X Guarani, sábado, na Itaipava Arena Fonte Nova.

Itaipava Arena Fonte Nova, que meu saudoso amigo João Carlos Sampaio chamava de Itaipavão.

A Fonte Nova, que se parece com o Maracanã.

O Maracanã, que se parece com o Mineirão.

A Fonte Nova, o Maracanã e o Mineirão, que se parecem com todos os estádios reformados para a Copa.

Mas não estou reclamando!

Progresso é importante. O Bahia está progredindo. O Bahia é o progresso. 

Deve ser por isso que Paulo Carneiro quer jogar na Fonte Nova. 

O progresso.

Estacionamento, acessibilidade, cadeiras.

Ora, dá para chegar e sair da Fonte Nova em 15 minutos.

Isso não acontece no Barradão.

Me lembro de um dos meus últimos BAVIS no Barradão.

Final do campeonato baiano de 2017. Era domingo. Torcida única do Vitória. Todos os ingressos estavam vendidos e havia muito engarrafamento. 

No caminho, quatro cachorros cheiravam uns aos outros e corriam pela terra. Era uma bela paisagem. 

Já haviam se passado trinta e dois minutos de jogo e o estacionamento do Barradão estava lotado. Teria que estacionar em algum outro terreno qualquer. Fiz a volta e dirigi até um desses estacionamentos no meio da lama. Dez reais. Dinheiro.

– Vocês não dão nenhum comprovante?

– Não temos mais, senhor.

Muito barro e muitas curvas. Seguia cada vez mais para o fundo. 

Crianças muito pequenas gritavam e me diziam para seguir em frente.

- Pode ir, tio!

Uma, duas, dez crianças. Crianças corriam por todos os lados. Meu Deus. 

“Vou demorar cinco dias para sair daqui. Um milhão de carros embolados e emaranhados no meio deste barro desgraçado”

Até que achei um espaço que poderia ser uma vaga. Talvez bloqueasse alguns carros, mas havia decidido tentar. Tentei estacionar, mas o guardador de carros me dizia que não, eu não poderia estacionar ali.

– Aqui não!

Saí e segui a fila de carros. Depois paramos. Paramos por muito tempo. Trinta e nove minutos do primeiro tempo. Um taxista, que vinha logo atrás de mim, atolava o carro tentando estacionar na minha não-vaga.

“Se cair uma chuva aqui, tudo vai virar lama e vamos ficar aqui para sempre”

Coloquei a cabeça para fora da janela e gritei para o guardador de carros.

– Ei! 

– O que?

– Se cair uma chuva aqui vai ser uma desgraça!

– Não vai chover!

Finalmente estacionei. 

Enquanto saía do carro, pude ver um homem velho caminhando, perdido, com olhar desesperado. Estava completamente transtornado.

– A gente nunca vai sair daqui! 

– Eu sei!

Ele me olhou no fundo dos olhos. Estava surpreso. Depois ele saiu andando. Saiu andando sem rumo.

Crianças cortavam caminho através do terreno. Eu seguia os caminhos delas para chegar mais rápido ao jogo. Havia muita gente do lado de fora. Pessoas que não haviam conseguido comprar ingressos. 

Até que entrei e vi alguma coisa do segundo tempo.

Um jogo ruim. 

Um 0 X 0 e éramos campeões baianos pela última vez.

Jogadores festejavam. Diretores entravam em campo. Homens brancos, de camisa polo. 

Um torcedor invadia o gramado e os policiais o enchiam de porrada.

Um palco era montado no meio do gramado, mas não conseguíamos ver nada, pois estava virado para as cabines de TV e camarotes.

Decidi ir embora. Comer um espetinho com farofa e ouvir La Fúria até o engarrafamento acabar.

Depois voltei para o carro. O terreno estava vazio. Não havia engarrafamento, não haviam outros carros, não havia ninguém.

Que lugar maravilhoso. 

 

*Marcus Curvelo é escritor, roteirista e diretor de cinema. Em 2015, publicou o livreto de contos “Homem Elipse e suas parábolas” através da Mostra Conto Salvador. Recebeu ainda inúmeros prêmios em festivais de cinema no país, incluindo 3 troféus candango no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de 2017.

 

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